Gente: o ativo mais importante
Sempre que surge o assunto ser humano, Gente, lembro-me do show que é apresentado no museu de história natural em Nova Iorque. A evolução da narrativa perpassa a vida da pessoa na sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país, nosso planeta, nossa galáxia e vai indo até um ponto em que fica claro que nada mais somos do que um pequeno e imperceptível grão nesse universo.
O momento que me agrada vem logo a seguir, e é aquele em que o narrador Tom Hanks diz: mas foi o ser humano que entendeu e descreveu tudo isso.
Essa é a grandeza então do tal ativo, o ser humano. Em qualquer atividade, sendo ele “gente” em uma organização empresarial, por exemplo, ele é capaz de criar maravilhas como essa de entender e descrever o universo, e continuar evoluindo por saber que ele ainda não sabe tudo.
Procurando contextualizar um pouco mais essa abordagem ao tema “Gente” – sem ainda chegar a considerações mais técnicas ou de caráter prático – gosto muito de uma análise feita pelo Dr. Fred Koffman. Analisando de forma ampla, a evolução do comportamento das pessoas e organizações, ele adota a imagem do “iceberg” para falar de resultado, processo e infraestrutura.
Comenta ele que o foco excessivo na dinâmica do resultado acaba determinando uma baixa qualidade para o que é alcançado, dado que esse enfoque é feito sobre uma dinâmica fora de controle: a do resultado, que acaba gerando muita ansiedade no processo de alcançá-la.
Ele diz ainda que a dinâmica controlável é a do processo e que tem duas dimensões: a técnica e a humana. Também comenta que a ênfase, nos últimos tempos, além de ter sido dominada pela preocupação com o resultado – no que tange à processo – ela centrou-se muito mais do lado técnico do que do humano.
Conclui ele, que é chegada a hora de se focar no que há de mais importante na dinâmica geral e na de processo em particular, que é o aspecto humano.
É isso, o ser humano volta ao centro do palco nessa era em que produzir mais não é a incógnita a ser decifrada, mas sim como viver melhor, a partir de agora, no nível de produção e satisfação que existe.
Procurando trazer ainda para mais perto de nós a contextualização do caminho, aparentemente mais correto a se adotar, queria lhes contar uma experiência maravilhosa que vivi na semana passada, no lançamento do novo livro “diálogos criativos”.
Lá estavam, para meu deleite, Frei Beto e Domenico Demasi falando das coisas da vida.
Um momento o que chamou minha atenção, em particular, foi quando falaram dos fundamentalismos que predominam o “hoje”.
Um deles, o do consumo – com raiz nos Estados Unidos – e o outro o religioso, no mundo islâmico.
Procurando observar o mundo latino, nesse contexto, a conclusão é que há dificuldades de se inserir porque nesse mundo o “indivíduo” é quem está no centro do sistema social e, portanto, a importância do “convívio” supera a da “competição”.
Lembrava o Sr. Demasi que o Império Romano conquistava, através do exército, mas administrava seus territórios não pela dominação e submissão das pessoas, mas pelo estímulo do convívio entre elas. O teatro e os banhos eram centrais para essa prática.
Já Frei Beto lembrou que a cultura das relações está nos escritos religiosos.
Ressalta ele que para “amar ao próximo como a ti mesmo” – esta a expressão é sobre isso.
Exploraram eles, então, o tipo de educação que mais serviria a esse tipo de cultura e, segundo eles, seria aquele que estimula as relações e, para isso, o autoconhecimento é elemento essencial.
O caminho para isso é a educação para a reflexão, para a introspecção, o que é muito difícil de se alcançar dados os barulhos que produzem os fundamentalismos prevalecentes (Demasi citou o telefone celular como um destruidor do silêncio e da introspecção).
Nesse contexto foi citado também o respeito à intuição, entendendo-a como sinônimo de inteligência, a capacidade de ler as pessoas e situações por dentro.
O que temos até aqui então? Um Tom Hanks, um Fred Koffman, um Frei Beto, um Demasi nos dizendo que a dinâmica humana ocupa o centro das possibilidades futuras de melhoria da vida – que esse ser humano é uma maravilhosa obra da criação, enquanto agente criativo, e que ele evolui mais e melhor, por meio do culto às relações.
O filósofo Ken Wilber – com foco na evolução humana e os sistemas criados pelos seres humanos, na sua projeção da evolução futura – fala de holismo e e integração total.
Fred Koffman fala da necessidade de desenvolver modos de pensamento e relacionamento que nos permitam coexistir pacífica e até sinergicamente, apesar de (ou melhor, graças à) nossas diferenças.
Em sua citação – Fred Koffman – “(…) Para sobreviver, devemos aplicar o que aprendemos da experiência; mas, para crescer (…) Temos que superar constantemente o que aprendemos no passado.
Uma outra, é de Nigel Nicholson, no livro Managing the Human Animal “ (…) A cor e vida de uma experiência de trabalho vem de nossa insistência e não de nos comportarmos como robôs (…)”
O que se deve buscar então são:
- Organizações criativas
- Relações humanas construtivas
- Lideranças inspiradas e centradas em crenças e valores
- Mudança dinâmica
Transpondo essa contextualização um pouco mais próxima da atividade empresarial e aceitando que a evolução experimentada pelo mundo deixa clara a importância do fator humano, alguns aspectos que parecem importantes de ser mencionados, dentre muitos outros, seriam:
- Clima organizacional
- Reconhecimento
- Liderança
- Identidade organizacional
- Ética e transparência
- Perfil de competências
- Educação continuada
- Sistema de gerenciamento de performance
Não vou me deter em cada um deles, mas é importante mencionar que o clima organizacional é importante para se poder contar com pessoas “inteiras” nos ambientes, assim como entender que corações e mentes vão juntos para o trabalho e que, portanto, é importante equilibrar estímulos e reconhecimento para estes dois universos, o mental e o emocional. O papel dos líderes na busca do equilíbrio de estímulos na prática do cotidiano é fundamental.
É porém nos aspectos relativos à “identidade organizacional” que gostaria de focar um pouco mais para logo em seguida comentar sobre educação continuada.
O cuidado com o alinhamento dos valores e a sintonia com crenças e princípios devem ser elemento central no treinamento dos líderes da organização. As pessoas se sentem muito mais seguras quando percebem clareza de propósitos numa organização. Os principais agentes de disseminação são os líderes da organização e, portanto, devem estar preparados para isso, incluindo o desenvolvimento da capacidade de criar espaço para concordâncias ou discordâncias por parte de seus liderados.