Ambição e Ética
A. INTRODUÇÃO
Este é um momento muito especial para mim e explico a razão.
Há algum tempo, deparei-me com um exercício sobre planos para a vida futura e ele abordava a questão sob três ângulos:
- Que cinco coisas eu faria se não me fosse imposta nenhuma restrição financeira.
- Que outras cinco eu faria se não houvesse restrição quanto a talento.
- Finalmente, as cinco que eu faria se não houvesse restrição quanto a recursos ou logística.
Lembro-me bem – na verdade, tenho registro – das respostas.
Nas questões relativas a talento e a recursos e logística, mencionei meu desejo de escrever para jovens e procurar apoiar ao máximo as iniciativas de empreendedores.
No momento em que respondia a essas questões estava muito sensível à necessidade de expor aos jovens o quanto de condicionamento viciado lhes vinha sendo imposto por crenças antigas, enraizadas em nossa sociedade.
Na verdade, a competência que gostaria de ter nesta hora, agora, é a demonstrada pelo Prof. John Keating, no filme Sociedade dos Poetas Mortos (papel brilhantemente representado pelo ator Robin Williams). No seu esforço de tentar liberar a criatividade dos jovens, a quem ensinava, dizia algumas destas coisas:
- Palavras e ideias podem mudar o mundo;
- Carpem Diem, façam suas vidas extraordinárias;
- Suas crenças são únicas, quando você pensa que sabe algo você deveria analisar isso de uma perspectiva diferente.
É por nutrir esses desejos que me senti honrado e feliz por receber esse convite para vir aqui conversar um pouco com vocês. Essa prazeirosa tarefa de hoje eu entendo como uma oportunidade para conversarmos sobre o que tem ocorrido no comportamento das pessoas diante das molduras éticas que lhes servem como referência. Tentar entender o momento presente que aparenta nos oferecer a oportunidade de uma transição. Questionar como poderá ser o nosso futuro é, finalmente, determinar o que parece ser importante para cada projeto individual. Quem tenta fazer o que estou fazendo hoje, ou seja, conversar, trocar ideias, está procurando aprender mais mesmo – porque só os sábios ensinam.
B. O QUE TEM ACONTECIDO
- Os excessos
- A deterioração dos costumes
Nada mais momentoso do que se discutir Ambição e Ética.
A humanidade parece estar passando a limpo um longo período de exageros e de desrespeito às normas do Bom Viver. Isso se verificou em vários campos da atividade humana.
As mazelas praticadas contra o bem público, a exclusão social , a artificialidade e a mentira no trato da atividade empresarial, a agressão à natureza, são parte de um ciclo que está sendo submetido à uma ampla revisão, a um sério expurgo.
Sabemos disso tudo e com certeza concordamos que o diagnóstico, a raiz dessas crises, é ambição desmedida e falta de respeito à ética.
Não é muito difícil demonstrar hoje o que o exagero, a falta de respeito às normas de convivência, às leis, acaba gerando para uma sociedade.
No campo político não precisamos ir muito longe. Nos últimos anos, o processo de “impeachment” de um presidente, as cassações de deputados e senadores, a prisão e a condenação de um juiz de direito, são demonstrações claras de como uma boa parte da elite de nossa sociedade se desviou de práticas honestas e do objetivo maior que é a busca do bem-estar.
No campo social a concentração de renda e recursos nas mãos dos já abastados, e o total desinteresse das nações desenvolvidas e de seus respectivos líderes pela sorte dos mais desfavorecidos, também expõem o que de pior pode realizar o ser humano: a exclusão de outros seres humanos. O que resulta disso é a violência que aumenta a cada dia. As agressões entre países, entre etnias, entre classes de uma mesma sociedade, são hoje parte integrante do noticiário diário. O que é ainda mais grave é a sua escalada. As elites se encastelam, criam moradas-fortalezas, trafegam em veículos blindados, acreditando em sua imunidade.
Na economia e nos negócios a deterioração dos costumes tem sido o tema dos dias recentes. Não é para menos. Aos poucos o que era meio foi sendo gradualmente transformado em fim.
Acumular infindavelmente recursos financeiros que foram criados para uma tarefa-meio – a de facilitar a atividade econômica – é um desses exemplos. O acúmulo de bens supérfluos, criados para satisfazer necessidades, é um outro.
Um artigo no jornal O Estado de São Paulo – de ontem – nos lembrava Keynes que dizia, “a situação é grave quando um empreendimento se torna a bolha em um turbilhão de especulação. Quando o desenvolvimento de capital de um país se torna um derivado das atividades de um cassino, a probabilidade é que a tarefa esteja mal feita”.
Nada poderia ter explicado melhor este momento do que as palavras do Sr. Greenspan, exuberância irracional e ganância infecciosa foi como ele caracterizou esta Era do mundo dos negócios norte-americano.
Recentemente, em um artigo traduzido para o jornal Valor sob o título “A ganância é nefasta” o Prof. Krugman nos lembrava do filme Wall Street – Poder e Ódio. Revi esse filme. Está quase tudo ali. Parecia até um prenúncio deste momento de grande degradação das práticas na condução dos negócios.
Surpreendente é que, ao mesmo tempo em que perdemos referências e o sentido da medida, corremos ansiosamente em muitas direções sem saber o porquê ou para quê e, ainda assim, evoluímos muito em outras dimensões. Junto com o querer sempre mais, não sabendo nos contentar sequer com excessos, conseguimos realizar descobertas científicas absolutamente fundamentais para o bem estar da humanidade. É tempo então de despertar e evoluir positivamente em todas as dimensões de nossa existência.
C. MOMENTO QUE VIVEMOS
- Tomada de consciência
- Transição
Há muita gente sábia procurando nos alertar para a necessidade de uma grande transformação de mentalidade a nível universal.
Os passageiros do planeta Terra têm uma dura caminhada pela frente. Nossa habilidade para fazer essa caminhada juntos, sem desastres, depende de mantermos altos os níveis de compreensão e baixos os de ansiedade, diz nos Willis W. Harman.
Que tipo de transição estamos vivendo? A que levam as mudanças que já começaram acontecer? Genericamente, este ciclo da evolução humana é denominado o do aumento do grau da consciência em todas as dimensões.
O Prof. Eduardo Giannetti comenta que é muito provável que usos e costumes correntes hoje em dia, principalmente no tocante a relações de trabalho, ao lugar de ambição econômica como valor cultural, à apropriação de recursos naturais e ao tratamento de crianças e idosos, venham a ser encarados num futuro, quiçá não muito distante, como práticas tão injustificáveis do ponto de vista moral, quanto alguns dos piores excessos cometidos por nossos antepassados no ambiente ancestral.
É fácil perceber, lendo-se os autores já citados, e também lembrando-se de obra recente de um economista que conquistou o Prêmio Nobel, – Dr. Fogel, em “O Quarto Grande Despertar e o Futuro da Igualdade, Liberdade” que o homem, o ser humano, volta ao centro do palco. Ele explora o tema da felicidade por ângulos distintos do de acumulação de riquezas.
Dr. Fogel opina que as formas de desigualdade inaceitáveis nas sociedades desenvolvidas hoje não são materiais, mas, desigual sim é a distribuição de ativos, imateriais ou espirituais, também chamados de capital de conhecimento. Alguns desses ativos são o sentido de propósito, a autoestima, um certo sentido de disciplina, a visão de oportunidade e a sede de conhecimento.
D. COMO PODE SER O FUTURO
- Que papel se deseja
- Alguns ensinamentos
Parece, então, que podemos concluir que a mudança que está sendo operada é no sentido de restabelecer o Bom Viver, de recolocar o humano e a busca da felicidade como a razão e o fim da existência.
Assim, se quisermos contribuir para a mudança, e participar desse novo mundo, devemos decidir nos perguntar que vida queremos levar.
Uma característica da raça humana, ao contrário de outros seres, é a de que podemos escolher, optar.
Essa escolha de tipo de vida pode ir na direção de nutrir desejos ilimitados que nos condenem à falta, à insatisfação ou à infelicidade nada mais são do que uma doença da imaginação.
A outra escolha leva à temperança, virtude que pertence à arte de desfrutar, e que não visa superar nossos limites, mas respeitá-los. É a prudência aplicada aos prazeres: trata-se de desfrutar o mais possível, o melhor possível, mas por uma intensificação da sensação ou da consciência que se tem desse desfrutar, e não pela multiplicação de seus objetos.
Alguém propunha a outro que se pudesse se apoderar de todas as riquezas que desejasse, haveria um custo. Esse custo seria o de nunca mais ver ou ser visto por qualquer ser humano. Revelou-se então a impossibilidade total da solidão absoluta e a necessidade da relação com outras pessoas. Assim, através da liberdade de escolher, podemos optar por uma vida virtuosa e equilibrada, e nela devemos cultivar as boas relações com as outras pessoas.
O escritor Fernando Savater diz que felicidade e realização pessoal são consequências naturais de fazer a coisa certa e que a boa vida não é uma questão de seguir uma lista de preceitos, mas de trazer ações e desejos em harmonia com a natureza.
A prescrição para uma boa vida centra-se em três temas principais:
- Controlar seus desejos.
- Cumprir sua obrigações.
- Aprender a pensar claramente sobre você e sua relações com a grande comunidade humana.
Uma forma objetiva de se construir um sistema de aferição e de escolha é levar em conta o que podemos controlar e o que não podemos. O Prof. Koffman nos relata que de uma forma geral podemos focar no resultado ou no processo. O resultado, não controlamos, e o processo, sim. A cultura da competição exacerbada, focada só no resultado, leva à ansiedade, pois o foco da ação está em algo incontrolável. Já a predominância do foco no processo, não só o técnico, mas, principalmente, o humano coloca a pessoa na posição de protagonista. É isso: o foco no resultado provoca com frequência a postura de vítima e, no processo, gera a proatividade, a ação, o controle da sua evolução, de tal forma que mesmo sendo o resultado só parcialmente alcançado, há a satisfação de se ter desenvolvido uma experiência de qualidade. Esse parece ser um bom caminho para guiar um bom profissional: a qualidade do processo.
Vimos que o processo central da existência humana é fazer escolhas, tomar decisões à todo tempo. Nesse processo é importante, então, que estejam presentes os elementos que levam a que, quaisquer que sejam os resultados alcançados nesta busca, tenhamos construído algo. Alguns desses elementos são:
- Compromisso com a verdade.
- Respeito aos limites; equilíbrio.
- Harmonia.
Todos nós buscamos alcançar algo. É da condição humana. Essa busca, se focada só num resultado é efêmera. Tudo muda e é finito. O que vale é estarmos em paz e harmonia conosco e com o mundo que nos toca.
Nesse caminho, se esta for a opção, é preciso ser capaz de inventar, de certo modo, a própria vida e não simplesmente viver a vida inventada pelos outros. É preciso ainda ter paixão pelo que se faz. É preciso estar convencido e por essa razão incondicionalmente envolvido em criar valor para si e para os outros.
Já começamos a ver ações de encaminhamento de soluções para os problemas de hoje. Mais uma vez a necessidade fecunda a imaginação humana e acaba gerando soluções.
No passado vimos a questão da ética tangenciar vários setores produtivos. Aos poucos essas questões foram se alastrando e exigindo respostas.
Hoje vemos a questão social amplamente debatida, a do ambiente também, e, ultimamente, muitas propostas de revisão da conduta na área política e na área de economia e negócios.
Abriram-se debates amplos e foram criados vários movimentos sérios para lidar com a questão da responsabilidade social e da sustentabilidade.
É assim que o mundo evolui .
A cada momento são tratadas as questões que passaram a oferecer dificuldade ao bem estar. Por vezes o tempo de solução é longo. Em outros momentos, dada a dimensão criada pelos desvios ou abusos, a solução requerida tem que ser rápida. Parece ser esse o caso agora.
O que também parece ser uma característica deste momento é que o que deve nortear as mudanças necessárias são as necessidades das pessoas. Depois de um longo tempo, sermos nós mesmos e nos comportarmos da forma simples possível, talvez seja a fórmula do sucesso.
Ao longo de toda a história, cada geração foi recebendo um legado que possibilitou que continuassem sendo realizados avanços no sentido do bem estar dos homens.
Assim, o que se espera é que cada um continue participando e adicionando à essa construção. Para isso, é preciso combinar: a ambição com a ética, a humildade com a autoconfiança, a modéstia com a coragem, o foco com a flexibilidade, a disciplina com a inovação e, ter sempre presente que: “o bem estar do homem é o único critério de valor ético.” (Fernando Savater).