Conhece-te e não exageres
O oráculo de Delfos já nos recomendava “homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás aos deuses e ao universo”. de onde entendo a ciência de ser comedido e observar os limites do razoável.
Conhecendo a alternância dos ciclos econômicos e das catástrofes que causam os excessos dos ciclos de expansão, antes restritas determinadas regiões, essas crises de natureza eminentemente financeiras, tem hoje impactos globais.
Se pela perspectiva econômica vemos debates e movimentos restritos às Finanças, por outro lado, observamos as manifestações das forças sociais, causando mudanças em realidades sociopoliticas estagnadas há muito tempo – Como no Egito, Líbia, etc…
Uma nação incapaz de honrar seus compromissos, sentirá a tensão desses movimentos, pois a redução do nível de atividade econômica cedo ou tarde se instala.
É possível até diferir essa redução de atividade através de injeções descomunais de liquidez as quais, após algum tempo, trarão a inflação e tornando inevitável o ciclo de retração.
Enquanto a discussão com relação à distribuição das perdas continua, a agenda passa a ser só essa, a do lado financeiro da economia. Dia após dia as manchetes de jornal dão notícia do último lance quer de devedores ou credores, numa ciranda infindável, dado o número de países envolvidos, não havendo espaço nas agendas para as discussões que podem efetivamente transformar o próximo ciclo na direção da criação de riqueza real.
Mark Kinney dizia, “Dinheiro é como uma argola de ferro colocada em nossos narizes. Ele agora nos conduz por aí, por onde ele quer. Nós simplesmente nos esquecemos que nós é quem o criamos”.
Dinheiro tem só o poder que atribuímos a ele.
No livro Dinheiro e Magia – Uma critica à economia moderna à luz de Fausto de Goethe, de Hans Christoph Binswanger, o autor diz “A produção de dinheiro com a ajuda da imaginação e da impressão só não é ainda verdadeira alquimia. O papel-moeda somente irá adquirir valor equivalente ao do ouro, depois que tiver sido materializado…, depois, em outras palavras, que o processo alquímico de criação de dinheiro tenha se estendido a toda economia, e se esta se expanda ou cresça em conformidade com o princípio da criação do dinheiro – isto é, quando a criação do dinheiro se tornar criação de valor.”
Assim, esses períodos de discussão para contornar crises financeiras são absurdamente pobres na reflexão sobre como fazer melhorar a qualidade de vida no mundo.
As questões centrais são abafadas pelo trauma que o medo das perdas impõe às pessoas em função do valor que estas atribuem à riqueza financeira.
Questões relacionadas ao emprego, à governança global e o quanto ela é necessária para a adequada discussão da utilização de recursos naturais e do clima, a questão da energia, perdem espaço durante a “assembleia de credores”.
O aspecto do emprego está ligado a essa discussão, é verdade, mas numa visão de curto prazo pois, para encaminhar solução duradoura a discussão deve se dar em torno de qual emprego. Que educação deve hoje ser dada para que se consiga que as pessoas participem de forma efetiva no processo de criação de riqueza real, ou seja, aumentar a empregabilidade das pessoas.
A questão da governança é central. Há ainda a ideia de que se pode resolver os problemas globais em foros nacionais ou mesmo regionais. Em artigo entitulado “Made in Mundo”, Thomas Friedman, mostra com clareza a natureza da intrincada matriz de produção de bens no mundo, e é ela que causa os impactos e deslocamentos com os quais temos que lidar para adquirir melhoria de vida e segurança.
Há sim um certo inconformismo com o fato de que o que foi criado para facilitar o processo de criação de riqueza real – o dinheiro, a finança – possa ter se tornado centro das discussões globais, impedindo reflexões e decisões que levaria ao real progresso.
Se ao menos as lideranças dotadas de poder nas decisões econômicas procurassem agir de forma preventiva, evitando os excessos, incorporando o que foi aprendido com crises passadas e agindo antecipadamente à deterioração financeira, poderia se evitar tanta destruição de riqueza e ganhar precioso tempo para as reflexões realmente densas.
Por ora, nada a fazer a respeito da dimensão econômica, a não ser evitar excessos de risco e aguardar, talvez por um bom tempo ainda, até que as perdas financeiras sejam distribuídas, para se poder voltar à vida com algum sentido maior.
Por outro lado, já é passada a hora de suplantar o autoengano, pois o universo externo está ampliado e nos convida para um período introspectivo, um mergulho nas dimensões mais fundamentais para a criação de parâmetros e pilares que plasmem e sustentem uma nova realidade.