A República que se afastou do país
A chamada “República de Brasília” deixou de ser uma expressão do país real. Tornou-se um sistema fechado, autorreferente, progressivamente desconectado da sociedade que deveria servir. Não produz riqueza, não gera valor cívico, não responde à cidadania. Vive da extração contínua de recursos, legitimidade e tempo político da República Federativa do Brasil — aquela formada por cidadãos que trabalham, empreendem, pagam impostos e sustentam o Estado.
Encerrada em si mesma, essa estrutura desenvolveu uma cultura de endogenia. Em ambientes assim, desvios deixam de ser exceções e passam a constituir o funcionamento normal do sistema. Corrupção, abuso de poder, opacidade decisória e desprezo pelo cidadão deixam de ser anomalias a corrigir e tornam-se mecanismos de autoproteção.
O efeito é institucionalmente devastador. Órgãos criados para servir à sociedade passam a servir a si próprios. A finalidade pública se inverte. A responsabilidade se dilui. A alternância perde sentido. O controle social é tratado como ameaça. O que se observa já não é apenas ineficiência ou erro: é disfuncionalidade estrutural.
Instituições disfuncionais não colapsam de um dia para o outro. Elas persistem, resistem e se defendem — até o ponto em que o vínculo com a sociedade se rompe. Quando isso ocorre, o poder deixa de ser legítimo, ainda que continue formalmente vigente.
A história mostra que sistemas políticos que se isolam do corpo social acabam por se esgotar. Não por desejo de destruição, mas por perda de sentido. A regeneração institucional, quando possível, ocorre por reformas profundas. Quando não, por rupturas políticas legítimas. Em qualquer caso, nunca pela violência, sempre pela consciência cívica e pela ação responsável dos cidadãos.
O risco não é o fracasso do Brasil. O risco é a persistência de um modelo de poder que já não consegue se justificar diante daqueles que o sustentam. Se a República instalada em Brasília não se reconectar ao país real — em valores, práticas e finalidade — não será a cidadania que falhará. Será esse arranjo institucional que se tornará historicamente obsoleto.
A alternativa não é o colapso. É a reapropriação da República pelo cidadão.
Não a negação do Estado, mas a sua recondução à sua razão de existir.
Não o ressentimento, mas a responsabilidade.
Não a espera passiva, mas a ação cívica consciente.
A República só se sustenta quando está abaixo da cidadania — nunca acima dela.